“Trate primeiramente o teu preconceito”

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Fotos: Henry Milléo

Esse é o recado da transmulher Laysa Machado. Ela é professora e garante ter sido a primeira diretora transexual do Brasil. Para ela, a escola pode encontrar meios de ser acolhedora

Carolina Mainardes

 

A professora Laysa Machado fala com entusiasmo de sua carreira de atriz, por meio da qual desenvolve vários projetos em que a sua história pessoal como transexual mulher, a trajetória no meio educacional e a temática LGBT ganham destaque: curtas (um deles – A morada transitória – foi exibido este ano no Canal Brasil), peças de teatro e até um longametragem estão nos planos da professora que também atua na produção. “Assim como a educação, o objetivo da arte é tocar, transformar”, acredita. Graduada em História, com pós-graduação em Teoria do Conhecimento Histórico, Gestão da Educação e Gestão Inclusiva, ela ensina História no Colégio Estadual Chico Mendes, de São José dos Pinhais (PR), em que já esteve na equipe de direção durante dois mandatos – apesar de não haver dados oficiais, ela garante ter sido a primeira transexual no cargo.

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Para chegar até lá, Laysa conta que enfrentou preconceito – principalmente de colegas de profissão – e teve que driblar situações difíceis, como dar aulas durante o processo de transição de gênero, ainda sem assumir a transexualidade. Hoje, casada, ela diz que se sente realizada como professora, mas ainda carrega como missão trabalhar para que o acesso e a permanência do aluno na escola ocorram na prática. Laysa chama atenção para que o aluno LGBT seja tratado como qualquer outro, alerta os professores para que tratem primeiramente o próprio preconceito e dispara: “O aluno LGBT sente esse não acolhimento”. Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista que Laysa concedeu ao Radar da Educação.

Radar da Educação: Como você define a professora Laysa Machado hoje?

Laysa Machado: Tenho uma missão – eu me dei essa missão – que é trabalhar para que nesses tempos de retrocessos, em todos os sentidos, haja uma pincelada de democracia, que faça com que aquilo que está na LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação] e no Estatuto da Criança e do Adolescente, que é o acesso e a permanência do aluno na escola, ocorra na prática. Como professora, sou realizada, porque estou em um espaço como a escola, que é uma instituição, e que, como instituição, nasce excludente. Nela, temos professores e equipes que não sabem como tratar o aluno LGBT – como se precisasse tratá-lo de maneira diferente. Ele deve ser tratado como qualquer outro aluno, porque não há diferença. Talvez haja [diferença] quando o professor ignora o bullying que esse aluno sofre em sala de aula. Ou quando, no conselho de classe, se faz uma piadinha homofóbica, achando que aquilo não é nada demais. Então, digo aos professores: “trate primeiramente o teu preconceito”.

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Como foi a sua trajetória até chegar à direção da escola?

Laysa: Para permanecer na escola e ser uma professora, escondi minha transexualidade o máximo que pude. Funciona assim: você é uma pessoa discreta, um aluno discreto, deixam você ficar na escola – ninguém falava isso, mas eu entendia. O aluno LGBT sente esse não acolhimento. Então eu ficava sempre no fundo, escondida. Usei estratégias, que às vezes não eram boas para mim, mas que me serviam como sobrevivência. Entrei na escola como professor de História. Quando assumi minha transexualidade, percebi que a pseudobonificação institucionalizada cairia por terra: a primeira coisa foi perder o emprego [ainda não era concursada]. Mas, não fui ingênua, sabia que isso aconteceria. Até assumir minha transexualidade, ainda trabalhei em outros dois colégios da rede estadual, como professor: fazia um rabo de cavalo, usava um jaleco amassando o seio, com uma performatividade masculina. Pegava o ônibus e já fazia maquiagem para descer no bairro, porque lá eu já era a Laysa. Foi difícil. Minha vida era um camarim perverso. É o que a sociedade faz com você: impõe – era uma imposição. Em 2003, fui contratada já como professora Laysa, em um Ceebja [Centro Estadual de Educação Básica para jovens e adultos], em Curitiba. Falei que sofria de disforia e que era pseudo-hermafrodita. Aí o diretor disse: “Então vamos ajudar”. Finalmente eu tinha um crachá de “professora Laysa”. Quando a escola quer ser acolhedora, ela encontra meios para isso. Quando não quer, é muito mais falta de vontade. E essa falta de vontade, infelizmente, só aumenta. Depois disso, fui aprovada em concurso público e ingressei na escola em que estou até hoje como professora e em que já estive, por duas gestões, na direção.

Você considera que sua presença no colégio contribui para o debate a respeito de questões como diversidade e igualdade?

Laysa: No colégio em que estou já há 12 anos não, porque minha presença se naturalizou. Acho que a contribuição é para outros colégios, em que eu não estou. Ao assumir minha transexualidade, pela primeira vez, como professora e diretora, em vez de dar dois passos para trás para dar três para frente, dei cinco passos para frente. Eu não quis mais ficar na sombra, eu não quis mais ficar como coadjuvante. Eu quis o meu protagonismo. E quando você se torna protagonista, passam a te vigiar cada vez mais, você passa a ser o foco. Quando você fica visível, torna-se alvo. Isso traz consequências boas e ruins. Mas, sei qual foi a minha importância e já falei na escola: uma coisa a história não vai tirar, e vocês não invisibilizarão – eu fui a primeira transexual do Brasil a ter um cargo diretivo assumindo publicamente. Se há outras, não sei, não assumiram.

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De que maneira a escola aborda questões como cidadania, preconceito, discriminação e homofobia? E como você acredita que a escola deveria tratar esse debate?

Laysa: Infelizmente, são poucas as escolas que têm coragem de abordar esses assuntos. E, quando são abordados, geralmente é porque isso está previsto no material pedagógico. Mas, a maneira com que [os temas] são trabalhados é muito subjetiva, é um faz de conta. A escola deveria trabalhar pensando nas políticas públicas que temos e que há retrocesso em algumas delas. Infelizmente, a laicidade está sendo ferida. A escola deveria pensar que a função dela é formar cidadãos e esses cidadãos têm que ter direitos e deveres iguais. Quando há diferenças, é preciso criar políticas públicas para acabar com isso. Vivemos tempos reacionários, um momento de antagonismos e dualidades. E todo mundo está perdendo. Regimes totalitários estão ganhando força no Brasil, e isso dá medo. Estamos muito longe de uma democracia de fato.

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Alunos LGBT te abordam para falar a respeito dos problemas e receios deles? O que você diz a eles?

Laysa: É difícil dar um conselho para esse aluno. Geralmente ele vem destruído, porque tem uma família que não o aceita, que não o acolhe. Eu prefiro dizer: “Só você sabe o momento de assumir a sua homossexualidade. Às vezes, é melhor esperar para ter independência econômica. Estude muito para poder ter essa vivência. O mundo não nos quer, mas nós temos direito a ele”. Já um conselho que dou aos pais é que existe um poder maior do que qualquer coisa, que é o amor, o amor incondicional. Os pais do aluno ou aluna LGBT têm que ter amor incondicional. Ser mãe é amar o seu filho independentemente da identidade de gênero ou da orientação sexual dele.

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