A volta do velho brincar

Luciane Motta

Foto: Henry Milléo

Luciane Motta, especialista em primeira infância, propõe o uso de materiais de largo alcance, como caixas de papelão ou pedaços de madeira, para estimular a criatividade das crianças

Carolina Mainardes

 

Sabe aquele menino que corre no parque com um graveto na mão, fazendo de conta que o objeto é um avião, um super-herói ou uma varinha de condão? Ou aquela menina que faz da caixa de sapatos uma casinha para suas bonecas? Cenas pouco comuns hoje em dia, em que as crianças estão vidradas em seus celulares e só andam pelo parque, geralmente, para caçar Pokémon, mas que são evocadas pela jornalista Luciane Motta (foto), especialista no brincar e na primeira infância. Luciane é diretora da Casa do Brincar, em São Paulo (SP), e esteve em Curitiba (PR) para um bate-papo a respeito do tema “O brincar e o uso de materiais de largo alcance”. Na oportunidade, conversou com o Radar da Educação. “As crianças são mestres em transformar objetos. Saem coisas incríveis das mãos delas”, comenta Luciane, que defende que o momento da brincadeira é essencial para o desenvolvimento de uma pessoa: “Acredito no brincar como uma ferramenta para tornar o ser humano melhor”. A especialista, que atua no planejamento de desenvolvimento de atividades para instituições como Sesc, Itaú Cultural, Prefeitura e Governo de São Paulo, explica que materiais aparentemente sem utilidade se tornam brinquedos inventivos e ampliam os espaços da imaginação a infinitas possibilidades. Entre os materiais de largo alcance podem estar tecidos, pedaços de madeira, canos, caixas de papelão, pneus etc. Em um mundo em que os brinquedos estão praticamente sendo substituídos por equipamentos tecnológicos (tablets e smartphones) desde muito cedo, colocar as crianças em contato com experiências um tanto desconhecidas é um desafio, mas que pode render momentos enriquecedores. Luciane alerta que, principalmente na primeira infância, o aprendizado da criança não deve ser conteudista, mas, sim, por meio da experiência. “A criança aprende vivenciando, experimentando, tentando, errando, fazendo de novo”. Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista.

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Radar da Educação: É preferível que a criança brinque com materiais de largo alcance em vez de brinquedos industrializados?

Luciane Motta: Quando falo em materiais de largo alcance, pretendo criar vários valores. Um deles passa pelo consumo. A criança não precisa consumir para ser feliz, ela pode se divertir sem comprar. Na Casa do Brincar, recebo crianças de famílias de classes mais altas e que têm brinquedos sofisticados. É difícil concorrer com isso. A proposta também inclui desenvolver a criatividade dessas crianças. Envolver outros materiais é uma maneira de tornar esse ser humano mais criativo, mais imaginativo, alguém que saiba resolver problemas. Acredito no brincar como uma ferramenta para tornar o ser humano melhor. Não é uma postura excludente, no sentido de “vamos demonizar a indústria dos brinquedos”. Tenho restrições – não gosto de brinquedos licenciados, de pressionar a criança para comprar porque é o personagem do desenho etc. O brinquedo industrial tem seu valor, mas podemos colocar elementos que não são brinquedos para que a criança estimule a imaginação e brinque com as duas coisas. Por exemplo: ela tem uma boneca superbacana – posso pegar a caixa em que vieram as compras do supermercado, jogar um paninho nela, deixá-la charmosinha e transformá-la no berço da boneca. Quando ela cansar de brincar, tiro aquele berço dali, viro a caixa de outra maneira para fazer de mesinha para a própria boneca comer. A hora que ela não serve mais para isso, abro duas portinhas na caixa e ela vira um túnel  para o carrinho. Se a criança quer brincar de outra coisa, colo faróis na caixa, prendo um suspensório, ela veste e sai brincando de carrinho. A criança que não tem recursos faz isso. Quando trago os materiais de largo alcance, que não são brinquedos, para o mundo do brincar (aquelas coisas que brincávamos na rua, a tempos atrás, quando a vida não era tão urbana assim e nem tão comercial), proporciono às crianças um momento de criatividade. Em geral, esse tipo de material causa mais estranhamento e dor no adulto do que na criança. A criança brinca muito bem. O adulto sofre – “você está dando caixa de madeira [de feira] e pedrinha para o meu filho brincar?”. E saem coisas incríveis das mãos das crianças.

Radar da Educação: O brincar deve ter lugar prioritário na vida da criança?

Luciane: Hoje temos uma concepção de infância, baseada na neurociência e em questões relacionadas ao desenvolvimento do ser humano, que valoriza essa etapa. E que é muito recente. No início do século passado, a criança era tratada como um adulto, inclusive ajudava na produção [de casa ou do trabalho]. Depois passamos por várias fases em que se olha para ela de maneiras diferentes. No final do século passado (que foi há poucos dias), estávamos tentando formar super-humanos. Viemos de uma geração que foi pressionada no mercado de trabalho e que precisa produzir muito e se atualizar sempre para sobreviver, recebemos pressões de todos os lados. E as famílias transferiram isso para as crianças durante muito tempo. Ainda hoje vemos indícios fortes disso – é aí que o “brincar” tem entrado, principalmente até os 3 ou 4 anos de idade, para que elas tenham tempo de ser criança. Depois, elas entram na escola – quando não é antes, porque há uma necessidade das famílias.

Radar da Educação: O que vem mudando?

Luciane: Há algumas décadas, a gente vem pressionando as crianças para serem superadultos e pessoas supercompetentes lá na frente. Ainda está na cabeça das pessoas que tempo bem aproveitado é tempo em que você está produzindo. Recentemente, podemos falar de uma geração de pais que está olhando mais para seus filhos, mudando a rotina para tentar ficar mais perto dessas crianças, e estão nascendo muitos (pais) empreendedores. Essas pessoas vêm procurando informação de qualidade e estão percebendo, com base em estudos sobre a infância, o quanto brincar é importante. A neurociência mostra que o desenvolvimento do ser humano se dá intensamente na primeira infância, que é dos zero aos 6 anos. E que nesse período o ensino não tem que ser conteudista, tem que haver um aprendizado por meio da experiência. A criança aprende na pele, vivenciando, experimentando, tentando, errando, fazendo de novo, se relacionando com o outro. O brincar é a ferramenta pela qual a criança reproduz o que ela enxerga no universo adulto, é onde ela acerta e erra várias vezes, é onde ela se conhece e conhece o outro.

Radar da Educação: Quais os prejuízos para a criança quando ela deixa de brincar ou não brinca o suficiente?

Luciane: Uma criança que fica muito tempo em frente a telas, por exemplo, e que não brinca nesse tempo, perde oportunidades importantes de se relacionar com o outro. Temos que pensar no uso social do brincar, em que a criança aprenderá como são as relações sociais, os conflitos, as resoluções, as negociações. Quando a criança está muito envolta em atividades em que ela fica isolada, em que ela não tem esse convívio com o outro, ela deixa de ter momentos ricos. E é interessante que esse brincar seja multietário. Além disso, quando você enche uma criança de obrigações, transfere para ela responsabilidades da vida adulta, o que causa pressão emocional. Além de não dar espaço para ela, você dá um excesso de responsabilidade que ela terá o restante da vida. Por que trazer as obrigações de adulto para a criança tão pequena? Por que enchê-la de tarefas, de lições e adultizá-la, dar tanto rigor a um momento que ela viverá só ali? As ferramentas que a criança pode desenvolver nessa fase são fantásticas. Deixe as obrigações para mais tarde, porque ela aprenderá.

DICA PARA EDUCADORES

Para Luciane Motta, os materiais de largo alcance podem ser utilizados por professores. A especialista lembra que o ambiente escolar também deve ser educador. “O profissional tem que preparar o ambiente para receber a criança”, observa. Para isso, Luciane sugere que o professor deixe de lado o olhar “viciado”, por meio do qual a sala de aula é equipada com objetos e aparatos convencionais. O ambiente deve conter elementos que propiciem o uso da criatividade e a brincadeira de maneira mais abstrata, o que inclui os materiais de largo alcance. “Temos que olhar para tendências como Reggio Emilia, Pikler-Lóczy, Waldorf e, mais recentemente, Anji Play, da China, como inspiração, pinçar de cada uma dessas abordagens o que é bom para nossa realidade. O professor tem que estudar sempre, e se permitir”.

 

 

 

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