“O custo do patrimonialismo na educação já ficou alto demais”

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Foto: Arquivo pessoal

Para a especialista Ilona Becskeházy, a Medida Provisória do ensino médio pode ser um primeiro passo para a equidade nas escolas brasileiras

Carolina Mainardes

“Agora é hora de priorizar as classes ou grupos sociais que estiveram marginalizados até aqui”. A afirmação é de Ilona Becskeházy (foto), especialista em Educação, que acredita que o novo modelo de ensino médio proposto pelo governo federal, que tem gerado muitas críticas, traz medidas mais razoáveis e necessárias do que descabidas. Ela destaca que a hierarquização de disciplinas – prevista na Medida Provisória (MP) 746/2016 – está alinhada com a tendência dos sistemas educacionais dos países desenvolvidos. “Para começar, dar o recado para o Brasil de que Língua Portuguesa e Matemática são prioridade é importante. Faltou dizer, por exemplo, que é prioridade principalmente por uma questão de equidade”, ressalta. Os currículos educacionais mundo afora e reformas curriculares de países desenvolvidos são temas de interesse da pesquisadora, que é doutoranda em Educação na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp). Para ela, o custo do patrimonialismo – concepção de poder em que não há distinção entre as esferas pública e privada por parte dos governantes e administradores públicos, que criam mecanismos de controle para satisfazer interesses particulares – na educação brasileira já ficou alto demais. Ao comentar os resultados de avaliações como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), a especialista enfatiza que o problema não está somente no ensino médio, mas vem desde a alfabetização. Acompanhe a seguir a entrevista concedida por Ilona ao Radar da Educação.

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Radar da Educação: Como você avalia a proposta de reestruturação do ensino médio apresentada por meio da MP 746?

llona Becskeházy: Nas reformas curriculares que analisei, a única que inclui todas as disciplinas de uma vez é a Austrália. E esse exemplo era o que tinha a documentação menos clara e, depois de estudar muito os documentos de lá, desisti de adotá-lo como referência. As demais reformas: Estados Unidos, Ontário [Canadá], Portugal, França e Reino Unido, têm ênfase absoluta na língua oficial e na Matemática e o tempo restante é dedicado às demais disciplinas. Em alguns lugares, incluindo a Austrália (que não especifica a progressão tão bem quanto os demais países), cheguei a ver a alocação percentual do tempo garantindo mais de 75% para as duas disciplinas, principalmente nos anos iniciais do fundamental. Então, para começar, dar o recado para o Brasil de que Língua Portuguesa e Matemática são prioridade é importante. Faltou dizer, por exemplo, que é prioridade principalmente por uma questão de equidade. A classe média pode aproveitar disciplinas como Educação Física e Artes muito mais que os pobres, por uma série de razões óbvias. Temos que ter coragem para encarar nossos esqueletos e fantasmas já. O custo do patrimonialismo na educação já ficou alto demais. Agora é hora de priorizar as classes ou grupos sociais que estiveram marginalizados até aqui.

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Radar da Educação: Você afirma que o problema da educação brasileira não está somente no ensino médio, mas vem desde a alfabetização. A análise dos indicadores das avaliações padronizadas feitas no Brasil dá pistas a respeito disso?

Ilona: Sim, desde a Ana [Avaliação Nacional da Alfabetização], que avalia aspectos bem básicos de compreensão textual e leitura, passando pela Prova Brasil nos 5º e 9º anos [do ensino fundamental], o desempenho dos alunos brasileiros é muito ruim. E como educação é um processo cumulativo, o que não se aprende em um ponto anterior qualquer, cobra um preço cada vez mais alto à medida que os anos passam.

Radar da Educação: Em sua opinião, o Ideb representa a qualidade da educação brasileira? Que informações desse indicador devem ser esmiuçadas para que se chegue a um panorama mais próximo à realidade e de fato se entenda o que está funcionando ou não na educação do país?

Ilona: A criação de um indicador combinado como o Ideb é fundamental no contexto do Brasil, em que a reprovação e o abandono dos alunos são extremamente altos. É necessário combinar desempenho com progressão. Mas, é importantíssimo apresentar e analisar as notas das provas, porque há muitos casos em que o Ideb reflete mais a correção de fluxo que o aprendizado dos alunos.

Radar da Educação: O Ideb observado nos anos iniciais do ensino fundamental ultrapassou a meta prevista para 2015. Apesar disso, pode-se dizer que essa pontuação revela um bom nível de aprendizado dos alunos dessa etapa?

Ilona: Há três coisas que fazem com que as metas do Ideb nos levem a uma falsa noção de conforto: a) por combinar fluxo com nota; b) por avaliar capacidades muito básicas no processo educacional; c) por ter nos levado a crer que uma meta 6,0 equivale ao desempenho médio dos países ricos, por uma conta muito grosseira que não considerou a complexidade das perguntas que compõem o Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], bem diferentes das que compõem a Prova Brasil.

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Radar da Educação: Essa perspectiva das metas previstas para o Ideb acaba “nivelando por baixo” a educação brasileira? O que fazer para mudar isso e buscar uma educação de alto nível?

Ilona: O que nivela por baixo são os descritores das provas, o verdadeiro currículo da educação brasileira. Precisamos de um currículo bem feito e que proponha um nível de rigor bem mais alto do que existe hoje. Disso decorrem a formação docente, a produção de material didático e a mobilização de recursos adequados para as salas de aula.

Radar da Educação: Os dez municípios com Ideb mais alto estão no Ceará. Isso revela o acerto das políticas públicas da área educacional no Estado?

Ilona: Sim. A questão é que precisamos deixar de lado o preconceito contra o Ceará e ir conhecer em detalhe as políticas públicas implementadas lá há muitos anos. O Ceará conta, por exemplo, com o sistema de avaliação mais longevo do Brasil e, numa outra política, é o estado que tem mais alunos compondo as turmas do Ita [Instituto Tecnológico de Aeronáutica], há mais de dez anos. O Ceará e suas políticas é um tema mais estudado fora do Brasil que aqui. As faculdades de Educação do Brasil têm muito preconceito contra as pessoas do sertão.

Radar da Educação: Qual a importância da definição da Base Nacional Comum Curricular nesse processo?

Ilona: Se o documento for bem feito, pode dar uma boa ajuda no processo educacional como um todo. Se for mal feito, perderemos mais uma oportunidade. Temos que esperar a terceira versão para avaliar.

 

Acompanhe mais detalhes das análises feitas pela especialista Ilona Becskeházy no blog Excelência e equidade em educação.

 

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