“Aprender a cuidar” urgentemente

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Foto: Divulgação

O teólogo Leonardo Boff acredita que esse ensinamento deve ser acrescentado aos quatro pilares da educação: aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser

Carolina Mainardes

Para o teólogo Leonardo Boff (foto), o tópico “aprender a cuidar” deve ser acrescentado urgentemente aos quatro pilares da educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Boff chama atenção para as graves ameaças a que a sociedade e a natureza estão sujeitas – “o que exige comportamentos éticos de amor, de compaixão, de solidariedade e de responsabilidade coletiva”. O escritor e professor universitário, conhecido pela atuação em prol dos direitos dos excluídos e um dos redatores da Carta da Terra, participará na próxima semana do Congresso Internacional Marista de Educação, em Olinda (PE), em que falará a respeito de educação, cuidado e ecologia. “Precisamos educar as pessoas a pensarem o novo e a se habilitarem a torná-lo realidade”, enfatiza. Na entrevista a seguir, Boff fala mais a respeito dessas e de outras questões ligadas à educação.

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Radar da Educação: No Congresso Internacional Marista, o tema de sua palestra será “Educação, cuidado e ecologia”. O senhor defende uma mudança de comportamento e de pensamento, em busca da sustentabilidade e em prol da cultura da complexidade. De que maneira a escola deve trabalhar com essa questão?

Boff: Dada a situação do mundo – em fase globalizada e na era ecozóica (em que a ecologia ocupa lugar central, em razão da sobrevivência) – a educação não pode se restringir aos pontos clássicos que a caracterizaram até agora: aprender a conhecer, aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conviver. Importa acrescentar urgentemente: aprender a cuidar, pois tudo na sociedade e na natureza está sob graves ameaças, o que exige comportamentos éticos de amor, de compaixão por tudo que sofre ou está degradado, de solidariedade e de responsabilidade coletiva. Por fim, faz-se urgente uma visão espiritual da vida, pois não basta cultivar o mundo do corpo e o mundo da psique, precisamos cultivar o mundo do espírito que é feito de solidariedade, veneração, cuidado e respeito por tudo o que existe e vive. Sem esses complementos nas mudanças que virão, poderemos ser condenados a repetir o passado e a não inaugurar o futuro. Para isso, precisamos educar as pessoas a pensarem o novo e a se habilitarem a torná-lo realidade. Como dizia Einstein: “quem tem o privilégio de saber, tem a obrigação de atuar”.

Radar da Educação: O senhor já declarou que o que agrava todo o processo educativo é a predominância do pensamento único. Como isso pode ser reformulado no Brasil?

Boff: Vivemos em uma cultura do capital e do sistema neoliberal, que propaga a falsa convicção do “Tina”, que quer dizer: “There is no alternative” – “não há alternativa”. Isso cria uma espécie de fatalismo e resignação, embora se reconheça a iniquidade social e ambiental desse sistema. Outros também respondem com um “Tina”, mas, que quer dizer: “There is a new alternative” – “há uma nova alternativa”. E essa [corrente] está fermentando em todas as partes do mundo e ganha visibilidade nos Fóruns Sociais Mundiais, nos quais representantes de todos os povos apresentam outras formas de cuidar da Casa Comum, de tratar a água, de cultivar a agricultura orgânica e de métodos de ensino ligados diretamente a essa realidade social e ambiental. Lamentavelmente, essa nova alternativa não possui força suficiente para propor e inaugurar outro tipo de história. O pensamento único possui um conceito reduzido do ser humano – não como um projeto infinito, cheio de virtualidades e um nó de relações voltado em todas as direções – e também uma visão curta e distorcida dos que dominam a política mundial. São fatalistas e afirmam o fim da história, pois isso lhes garante o poder. Não contentes em se apropriar do presente, querem ainda aprisionar o futuro a serviço de seus interesses corporativos. Devemos defender a concepção do ser humano, criado criador, sujeito de liberdade e de fantasia, capaz de projetar sonhos e utopias que fazem a história caminhar e melhorar.

Radar da Educação: O senhor acredita que a diversidade, na escola, pode contribuir para um novo modelo de educação?

Boff: A diversidade existe, basta olhar para os lados. O problema é que, não raro, interpretamos o diferente como desigual. Daí que se derivam as exclusões e os preconceitos. É uma tarefa urgente da escola introduzir nos estudantes uma visão rica e ampla do que é o ser humano, uno em sua essência e diverso nas manifestações histórico-sociais dessa essência. Devemos inculcar a noção de que podemos ser humanos de muitas maneiras diferentes, na forma japonesa, chinesa, indiana, nordestina, sulina, indígena, afro-descendente. Com a mesma humanidade, o sangue é vermelho para todos e o coração pulsa mais forte diante da pessoa amada. Podemos ser justos, amantes da verdade, sinceros, amigos uns dos outros, trocando experiências e conhecimentos e assim enriquecer em nossa própria humanidade. Somos inteiros, mas incompletos. E nos completamos pelas múltiplas relações que entretemos. Não somos um dado fechado, mas sempre feitos e refeitos consoante às histórias de vida de cada um e de cada povo.

Radar da Educação: A internet contribui para a democracia e para a conscientização do jovem em relação a questões sociais e políticas? A escola deve estar atenta a isso?

Boff: A internet é um instrumento. E como todo instrumento serve para algum fim. É um instrumento fantástico para o fim de divulgação de conhecimentos, acumulados pela humanidade. Apresenta um sem número de janelas pelas quais podemos contemplar a riqueza das culturas e das experiências humanas. Mas, como todo instrumento, pode ser usada para fins dignos e nobres, como para fins destrutivos e até criminosos. Tudo depende do projeto de vida que está na cabeça de quem usa a internet. Como, em geral, ocorre com as novas tecnologias, há um primeiro momento de fascinação que inunda nossa consciência, ocupando significativo tempo de nossa vida. Depois, domesticamos o instrumento e ele se torna habitual. Damos conta de que há outras coisas mais importantes na vida do que a comunicação via internet. A partir daí, ela é inserida no contexto global da vida e nos comportamos de maneira livre e não dependente dela. Creio que esse percurso, que aconteceu com o rádio, o telefone, a televisão, ocorrerá também com a internet. Ela abre espaço para o ser humano realizar melhor a sua essência, que é a de um ser de relação ilimitada. Agora, não são o vizinho e o próximo os referentes da relação, mas o mundo inteiro e potencialmente todos os seres humanos. Hoje, a internet é um espaço para a discussão ideológica, política, educacional e de todo tipo de interesse. Oxalá estreite os laços de humanidade e tudo concorra para salvaguardar a única Casa Comum que temos, a Mãe Terra.

 

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