Internet também é ferramenta de leitura

Joao Luis Carrascoza

Foto: Henry Milléo

O escritor João Anzanello Carrascoza reforça a importância da leitura para que o aluno aprenda a escrever bem e aponta outras possibilidades além da literatura para esse aprendizado

Carolina Mainardes

Para o escritor João Anzanello Carrascoza (foto), “ninguém consegue escrever bem sem ler”. No entanto, ele acredita que a leitura pode acontecer por meio de outros instrumentos que não necessariamente livros ou clássicos da literatura. “Internet, sites, também são [ferramentas de] leitura. Pode não ser literatura – o cara não está lendo Shakespeare. Mas, ele está lendo algo, não há como dissociar do universo da leitura”. Escritor – contista e romancista premiado – e professor universitário, Carrascoza esteve em Curitiba (PR), para palestrar em evento do programa Agentes de Leitura do Paraná, e conversou com o Radar da Educação. O ato de ler, segundo o escritor, corresponde ao ato de decifrar, mas a narrativa também está presente no game, no cinema, nas piadas: “Estamos sempre contando histórias, elas não precisam estar represadas em um livro”. Apesar disso, Carrascoza não deixa de ressaltar: “o mais importante é facilitar o acesso ao livro”. Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista, em que o autor também fala a respeito de como o processo de leitura influencia a produção literária dele.

Curta o Radar da Educação no Facebook

Siga o Radar da Educação no Twitter

Radar da Educação: Como formar leitores na era digital?

João Anzanello Carrascoza: Quando vou às escolas falar sobre literatura com público infantil ou adolescente, eles [os estudantes] estão descobrindo a leitura, com paixão. Quando chegam à universidade, parece que houve um buraco, eles perdem um pouco [essa paixão]. Não sei se é porque têm que estudar para o vestibular ou crescem e têm outros concorrentes – como os games, os cinemas, as minisséries, as músicas, a vida que os leva a viver a própria narrativa de um lado a outro, uma narrativa mais contemporânea nesse mundo cheio de aparelhos –, e vão se afastando [da leitura]. Mas, internet, sites, também são [ferramentas de] leitura. Pode não ser literatura – o cara não está lendo Shakespeare. Mas, ele está lendo algo, não há como dissociar do universo da leitura. Ele está checando informação, está sentindo coisas, está capturando algum conhecimento. Além disso, a narrativa está no game, na internet, nas séries, no cinema, nas novelas, nas piadas, estamos sempre contando histórias, elas não precisam estar represadas em um livro ou em um e-book. Temos que deixar espaço, deixar o aluno encontrar também o seu caminho, porque é próprio do jovem se reinventar e buscar as coisas e as questões que interessam a ele. Temos que deixá-lo escolher. E, o mais importante: facilitar o acesso ao livro.

Radar da Educação: O desempenho ruim dos estudantes na redação, no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), é reflexo de um país que não lê? Como preparar o aluno para escrever bem?

Carrascoza: Se a leitura é superficial, epidérmica, como o aluno terá profundidade para escrever? Se ele não lê, não tem complexidade na construção do texto, porque precisa estar habilitado com a linguagem, saber mentalizar. Ele pode até sentir a emoção, porém, não sabe se expressar. E sem saber se expressar, ele não vai longe. Essa expressão há de vir primeiro do ato de ler, do ato de decifrar, porque a leitura é uma reescrita, você está fazendo conexões com as palavras, com as letras. Ninguém consegue escrever bem sem ler. Todo escritor é um grande leitor, isso é o começo de tudo.

Radar da Educação: Você comentou, na palestra, que a sua inspiração para a literatura vem da leitura do outro. Como se dá esse processo?

Carrascoza: Vem da leitura do outro, mas da leitura de mim mesmo. Você começa a entender a si próprio e a se configurar como gente, como pessoa, e vai descobrir que isso pode partir de uma leitura, com elementos se compondo, tendo um significado. Você vai decifrando o que as coisas significam, com base no que você tem como possibilidade naquele instante – quando você caminha um pouco mais, lembrará de um fato e verá significado para aquela sua memória. Antes, você não tinha a vivência para entender que aquilo que aconteceu foi bacana ou foi um marco. Quando você vive mais, ressignifica aquilo e vai relendo a si mesmo. Esse processo de leitura começa com a vida. Você lê (a si próprio), se redescobre e se reescreve o tempo todo. Cada pessoa é uma espécie de texto que está o tempo todo se movendo, se refazendo, se alterando. Como em um livro, às vezes, acontecem fatos na vida da gente em que o capítulo muda: você muda de cidade, de amor, de perspectiva, de sexo, de gosto. Assim você vai se refazendo, muitas vezes com a sua lente, a sua miopia – não é só o que você consegue ver, há também as suas deformações, que não te permitem ver. E aí você entra em conexão com o outro, ou não. Somos esse texto que vai se refazendo o tempo todo, de tal maneira que se você quer ter uma aproximação com outra pessoa, por exemplo, em uma situação amorosa, você quer misturar esses universos, esses horizontes, de leitura e escritura de mundo, penetrar neles, seguir sentidos e significados. Isso pauta meu caminho como escritor. O escrever, sempre, é um “ler” primeiro.

 

Obrigado pelo seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s