Criança precisa de um mundo para construir

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Fotos: Henry Milléo

A jornalista Gabriela Romeu apresenta um pequeno inventário da vida de meninos do sertão e propõe uma viagem pelas encantarias de um quintal que, diferente do das cidades, não vem pronto

Carolina Mainardes

O brincar e os desafios de crescer são universais. Mas, esse brincar pode ter mais ou menos qualidade. Essa constatação da jornalista e pesquisadora Gabriela Romeu (foto) ganha corpo nas histórias e na vivência que ela teve ao reunir material para o livro Terra de cabinha (Ed. Peirópolis). A obra é um pequeno inventário da vida de meninos e meninas do sertão do Cariri cearense – região em que as crianças são chamadas de cabinhas. O livro nasceu da experiência do Infâncias – projeto de pesquisa, registro e reflexão sobre a vida das crianças em diferentes lugares do país desenvolvido pela jornalista. Gabriela esteve em Curitiba (PR) no dia 8 de outubro para o lançamento do livro e também para a Formação Inventário da Infância e expo-relicário, na Ludocasa, e falou com o Radar da Educação a respeito de suas descobertas. Ela acredita que dar voz aos cabinhas contribui para o resgate de uma infância genuína e de encantos, que quase não se vê mais nos centros urbanos. “Para eles, o mundo é feito de castelos, árvore é brinquedo e assombração existe”, afirma. “Lá, as crianças estão entre a realidade e o fantástico, o que cria essa infância de encantarias”.

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Quintais e cotidiano

Ao falar das crianças e de seus quintais de terra – comuns na região rural do sertão –, Gabriela lembra que muitos aspectos da essência dessa relação se perderam no violento processo de urbanização, que alterou o modo de vida das pessoas e, consequentemente, interferiu na dinâmica da infância. “A criança brinca em todo lugar. Mas, é claro que se ela tiver um quintal com matéria-prima rica, com elementos desconstruídos para que ela possa construir, faz toda diferença. Na cidade, a gente dá a ela um quintal pronto, com EVA no chão. E tudo o que a criança precisa é um mundo para construir”, enfatiza a pesquisadora.

Outra peculiaridade identificada nas comunidades tradicionais do sertão é que as crianças vivem o cotidiano junto dos adultos. “Não é essa infância fragmentada que há na cidade. Esse é um aspecto diferente e que interfere muito e significativamente na vida das crianças”, observa a jornalista. Os mundos adulto e infantil não são apartados e a criança, muitas vezes, não é cuidada somente pela mãe, pelo pai ou pelos avós. “Toda uma comunidade cuida dela”.

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As brincadeiras e o tempo

As brincadeiras das crianças do sertão têm interferências dos festejos religiosos e populares. Gabriela conta que, na Semana Santa, por exemplo, é tempo de brincar de “careta”. Nesse caso, careta é sinônimo de máscara, usada na tradicional brincadeira que acontece em vários cantos do Cariri – explica a autora. Nessa época, as crianças se preparam para a malhação de Judas e, com máscaras, chocalhos e roupas esfarrapadas, os caretas arrecadam dinheiro e comida para o evento e são os guardiões disso tudo. Mas, não é só isso. Gabriela relata no livro que há regras para participar: “quem começa a brincar tem que seguir brincando durante sete anos, sem parar; aquele que veste a careta não pode revelar sua identidade de jeito nenhum – a macaca (chibata ou chicote) ajuda a afastar quem tenta chegar perto pra desmascarar o brincante; careta tem que ser pidão”.

Já o tempo, para os cabinhas, é determinado pela natureza. Por todo o Cariri, são muitas as árvores que dão fruto, sombra e brinquedo: “tem um monte de brincadeiras e de comidas ligadas a isso”, conta Gabriela. E também tem a época da “chuva do caju”, entre outubro e novembro, que cai pontualmente e faz com que os cajueiros, floridos, dêem frutos. “É uma infância que tem um calendário baseado no ciclo da natureza. E isso cria no menino do sertão a sabedoria da espera, porque a natureza impõe isso a ele”, comenta Gabriela. O livro traz também relatos sobre o Reisado – manifestação popular que, segundo a jornalista, é um brinquedo passado de geração a geração, que dura toda a vida – e que Gabriela registrou no curta Meninos e reis.

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Inventário

Esse tipo de informação, na visão da pesquisadora, pode ser trabalhada pelos educadores. “É muito importante termos uma representatividade de infância e não um modelo único do que é ser criança”, ressalta. Nesse aspecto, o quintal pode ser encarado não só como espaço geográfico, mas como espaço do exercício de viver a infância. Ela sugere a pesquisa e a apresentação dessas diferentes formas de infância e do brincar para os alunos, a troca de saberes por meio de dinâmicas, oficinas, construção de objetos, conversa com os avós. “São atividades que trazem a importância da tradição oral, das histórias de boca”, considera Gabriela. E, por fim, a criação de um inventário, com as crianças, com base nas encantarias da infância e em questões como “Você brinca de quê?”.

 

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