“Leitura é contaminação amorosa”

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Fotos: Henry Milléo

A escritora Marina Colasanti adverte: professor que não é leitor não tem como formar alunos leitores

Carolina Mainardes

Para a escritora Marina Colasanti (foto), autora de extensa obra e ganhadora de vários prêmios, a questão é clara: o professor que não é leitor não tem como formar leitores – “não formará um”, afirma. “A leitura é contaminação amorosa: o professor tem que acreditar no que diz e, para acreditar, ele tem que ser leitor”, ressalta. Marina acredita que a literatura coloca ao alcance do leitor uma multiplicidade de elementos e, no caso dos estudantes, deve haver uma condução, como um leitor guia. A escritora esteve em Curitiba (PR) para participar da 5ª Semana Literária Sesc, em que falou sobre o lugar da literatura na vida do indivíduo, e conversou com o Radar da Educação. Além de o brasileiro ler pouco, os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em redação mostram que os estudantes têm dificuldade para escrever. “A escrita não faz parte da cultura brasileira”, afirma Marina, que também atribui o resultado à baixa qualidade da formação docente no Brasil. “As professoras são esforçadíssimas, mas são malformadas”. Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista.

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Radar da Educação: Como a escola deve atuar para a formação de leitores e de que maneira o professor pode incentivar o interesse pela leitura?

Marina Colasanti: O professor que não é leitor não tem como formar leitores – não formará um. A leitura é contaminação amorosa: o professor tem que acreditar no que diz e, para acreditar, ele tem que ser leitor. Tenho visto trabalhos maravilhosos por parte de professores que são leitores, que são entusiasmados, emprestam livros, fazem concursos internos, preparam os meninos para escrever. Mas são professores que leem, que acreditam no que estão dizendo. A leitura é apaixonante, é viciante, porque põe ao alcance do leitor uma multiplicidade de elementos e, ao mesmo tempo, dá a ele geografias diferentes, outras culturas, a dinâmica dos sentimentos de várias pessoas. A leitura nos dá o lado de dentro da vida, e isso é muito rico. Mas, [para o aluno] tem que haver uma condução. Gosto muito do trabalho com leitor guia – um leitor experiente que lê com os estudantes e vai desvelando o conteúdo daquela leitura. Ou de um clube de leitura, com vários jovens que se juntam e comentam o livro uns com os outros, porque o jovem que lê, no Brasil, corre o risco de ficar muito sozinho. E hoje se pode fazer clubes de leitura pela internet.

Radar da Educação: Os resultados da redação do Enem mostram que o estudante brasileiro conclui o ensino médio sem uma base mínima para escrever bem. De que maneira pode haver um bom aprendizado para a escrita?

Marina: A escrita não faz parte da cultura brasileira. Não é um requisito social. Recebo cartas de professoras com erros de Português – não é culpa da professora, é culpa da formação que ela recebe. As professoras são esforçadíssimas, mas são malformadas. Alguém diz, na faculdade de Pedagogia, que essa é uma profissão para quem quer estudar a vida inteira? Alguém diz que essa é uma profissão para quem gosta de ler? A maioria dos professores lê? E também, se não lê, como vai escrever? Escrever não é só acertar a língua (gramática) – falei no erro de Português porque é a coisa mais flagrante. Mas, escrever se aprende. E se aprende aonde? Nas escolas, na formação. Vejo trabalhos de faculdade que não passariam nem no ginásio [ensino médio]. A escrita não é considerada uma obrigação social. Na minha família, todos escreviam e todos escreviam muito bem, porque fomos educados para saber escrever bem, fazia parte [da educação]: “Se ensinava ‘bom dia, boa tarde, obrigada’ e escreve uma redação: [com os temas] o que eu fiz ontem, o que eu estou lendo”. E é um requisito social de certas culturas. O Brasil era até mal visto por Portugal por isso, não tínhamos universidade, não tínhamos editora, não tínhamos imprensa. Isso em um passado histórico, mas muito recente. Só que o mundo está correndo e não estamos acompanhando.

Radar da Educação: Como fazer para que a leitura faça parte da cultura brasileira?

Marina: Estamos nos fazendo essa pergunta e estamos tentando encontrar a solução. Temos a resposta, mas, o avanço é tão lento, tão pequeno. Viajo muito e vejo, no Brasil inteiro, grupos trabalhando, professores dedicados, uma prefeitura ou outra, um governo estadual ou outro mais interessados, mas, quando a pessoa ou o governante muda, leva-se um tombo, apaga-se o que já se construiu, há um retrocesso e tem que se começar outra vez. Sabemos como se faz: há, por exemplo, o Decálogo [de Ação] da Unesco. Muitos países enfrentaram essa questão, como a Irlanda e a Coreia. A gente sabe como se faz, só não consegue fazer.

Radar da Educação: A literatura pode contribuir para melhorar a educação do país?

Marina: Talvez seja o contrário. Um país bem educado – educado no sentido mais amplo, não só do ponto de vista estatístico, mas educado para a vida –, é mais facilmente um país produtor e fruidor de arte. Quem são hoje os grandes países leitores? A Islândia, que é um país de população minúscula e com todos educados. A França, país em que, embora eles se queixem eternamente, há educação de alto nível. Para chegar à literatura, você tem que saber decodificar, saber ver o que está por trás das palavras, ter capacidade de concentração, ter abertura para fazer conexões, e ter conhecimento. Porque a literatura, como qualquer arte, é cheia de links – se você não tem o conhecimento, você perde o rumo. São links para a história, para a sociologia, para a filosofia. Se você não tem informação, não elabora ideias de maneira organizada, de maneira consequente. Como irá aproveitar [a leitura]? Leitura é uma coisa, leitura de literatura é outra coisa. A literatura não tem a mesma aderência para todas as pessoas. Leitura é bom e útil para todo mundo, é uma ferramenta de sobrevivência. Já literatura é arte, e o aproveitamento, a fruição da arte, não é igual para todos os indivíduos.

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Radar da Educação: A senhora escreve para vários públicos. Como se relaciona com esses públicos?

Marina: De toda maneira. Eu encontro o público a toda hora, viajo muito, as pessoas falam comigo, me escrevem. Há leitores – o problema é que a porcentagem de leitores é muito pequena frente à porcentagem dos não leitores. E não só nas classes populares – a classe média brasileira lê pouco. Há lugares, como Paris, em que se falar do livro do momento é um tópico de conversa. No Brasil, está acontecendo um fenômeno de mercado, fenômeno mundial de uma sociedade interessada no enriquecimento: os youtubers. Nada contra, mas o que acontece é que o jovem faz aqueles vídeos para o YouTube e, a maior parte dos que eu vi – não vi muitos –, é bastante insignificante, com coisas momentâneas, brincadeiras, galhofas ou críticas em tom juvenil. Um editor verifica quantos seguidores o youtuber tem e propõe fazer um livro, mesmo que ele não saiba escrever. O editor diz que não importa: “O livro a gente faz, a partir dos seus vídeos”. Este ano, estive na feira literária de Bogotá, que [um dia] teve a bilheteria fechada porque havia tamanha multidão que punha em risco a segurança, por causa de quem? Em terra de García Marquez: por causa de um youtuber que não era nem colombiano. Qual é o perigo? O perigo é que, ao tentar atender o desejo do público, se dá ao público só o que ele espera, só aquilo com o que ele já está acostumado, só o espelho dele mesmo. Isso, para os jovens, é altamente pernicioso, porque você não dá o novo, não dá informação, não dá surpresas, não põe a cabeça dele para funcionar, não alimenta o imaginário. Temos aí um problema, baseado em números: “x” seguidores. Quando garota, eu lia Tarzan, [Emilio] Salgari… eu estava em outros universos o tempo inteiro. A minha geração leu livros de aventura maravilhosos, altas viagens, coisa muito rica, surpreendente. Agora, tomou-se outro caminho. Mas, há pessoas fazendo um esforço para mudar isso.

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