Outra escola é possível

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Fotos: Henry Milléo

Para o educador português José Pacheco, é preciso reconfigurar a prática, dar autonomia às escolas e cuidar dos professores para que se tenha educação de qualidade

Carolina Mainardes

O educador português José Pacheco (foto), conhecido pelo trabalho que desenvolveu na Escola da Ponte, em Portugal, acompanha mais de duzentos projetos educacionais no Brasil, e garante que aqui há escolas excelentes. Porém, o educador chama atenção para problemas do sistema educacional brasileiro que resultam em abandono escolar, índices de proficiência “miseráveis”, professores doentes, entre outros. Para Pacheco, vale reforçar a já conhecida sentença de que a escola de hoje é composta por alunos do século 21, com professores do século 20 e sistema educacional do século 19. Mas ele afirma que outra escola é possível: “É preciso que haja autonomia nas escolas, que se cuide (da pessoa) do professor e que se reconfigure a prática: aula, turma, série, prova, não fazem sentido nenhum no século 21”.

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Pacheco esteve em Curitiba (PR) no dia 26 de outubro, para debater o tema “Que outra escola é possível?” e conversou com o Radar da Educação. O encontro foi promovido pelo Colégio Medianeira e reuniu interessados em ouvir o educador a respeito das experiências transformadoras que vem conduzindo no Brasil, com foco em gestão democrática e nas relações que se estabelecem na escola. Para ele, a gestão democrática só existirá quando a escola tiver autonomia: “Gestão democrática pressupõe a prática da cidadania como um exercício da liberdade de expressão. E a minha liberdade começa quando começa a liberdade do outro. Se o outro não é livre, não posso ser livre”. Quando fala em reconfiguração da prática, Pacheco refere-se não apenas à prática pedagógica, mas a uma mudança no sistema educacional. Ele acredita que uma escola que tem diretor, mesmo que seja eleito por seus pares, não pode ser democrática nem autônoma. “O diretor, na função pública, tem deveres e obediência hierárquica. Onde é que está a autonomia e a prevalência do critério de natureza democrática?”.

Projeto Âncora

Voltado a uma prática educacional acolhedora e participativa, o premiado projeto Âncora, desenvolvido em Cotia (SP), é uma das iniciativas brasileiras que contam com a expertise de José Pacheco e inspiração na Escola da Ponte. O Âncora atua com base em três pilares: valores, multirreferencialidade teórica e marco legal, como os Parâmetros Curriculares Nacionais. Lá, crianças de todas as idades e níveis de conhecimento ocupam os mesmos espaços e aprendem juntos. Para isso, a escola adota ferramentas que auxiliam a prática pedagógica e possibilitam o exercício da reflexão, da autonomia e do engajamento coletivo. Há uma equipe de diretores e conselheiros e todos que trabalham no local são considerados educadores. “O projeto Âncora e tantas outras mostram que é possível”, afirma Pacheco. O professor cita outros exemplos, como as escolas municipais Amorim Lima e Campos Salles, de São Paulo (SP), que reformularam seus currículos e valorizam a autonomia dos estudantes.

Olhar para a Catalunha é outra sugestão: “Os jesuítas acabaram com as aulas, com as turmas, com as séries, com as provas, porque isso não faz mais sentido”. Pacheco refere-se ao projeto Horizonte 2020 (Horitzó 2020), adotado pela rede de escolas jesuítas de Barcelona, na Espanha, e que busca transformar o processo de ensino e aprendizagem. O modelo consiste na superação da divisão do ensino por temas e horários, assim como dos livros convencionais e das tarefas de casa, o currículo, a didática e a avaliação. Pacheco acredita ainda que a escola deve dar segurança aos professores para que possam atuar de maneira confiante nesse processo. “Porque o professor não ensina somente aquilo que diz, mas transmite aquilo que ele é”. A lógica é simples: se a criança crescer em um contexto democrático e em que haja autonomia, é assim que ela conduzirá sua vida. “Tudo acontecerá naturalmente”.

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BNCC e reforma do ensino médio

Em meio a esse debate, estão em curso no Brasil a elaboração da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a reforma do ensino médio, prevista na Medida Provisória (MP) 746/2016. Para Pacheco, o país ainda não está no caminho certo. O professor acredita que o Ministério da Educação tem técnicos capacitados, porém, o órgão não atua com foco nas necessidades da educação do século 21. Ele classifica a MP como um “disparate” e reforça que, na BNCC, divide-se o conteúdo em áreas disciplinares e anos – modelo que acredita que deva ser extinto. “Mas há que se ter esperança. Conheço muitas escolas no Brasil e muitas são excelentes, porque fazem um bom trabalho. Espero que um dia o Ministério também faça”.

2 comentários sobre “Outra escola é possível

  1. ‘Mas ele afirma que outra escola é possível: “É preciso que haja autonomia nas escolas, que se cuide (da pessoa) do professor e que se reconfigure a prática: aula, turma, série, prova, não fazem sentido nenhum no século 21”.’ Sensacional. Meu sonho é trabalhar numa escola como a Escola da Ponte.

  2. Pingback: Afinal qual é o caminho? | Caldeirão de Ideias

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